Os poetas e escritores famosos costumam escrever textos que enaltecem o idioma pátrio e sua gramática, e às vezes aparece um anônimo que escreve um texto engraçadíssimo brincando com o léxico.
É bom estarmos atentos porque a interação com a leitura pode nos levar à um prazer incomparável e, por quê não, ao conhecimento de nós mesmos.
Veja quanta beleza e graça está por aí escondida. (José Roberto de Campos)

Índice dos textos

Meu Professor de Análise Sintática - Paulo Leminski
Língua Portuguesa - Olavo Bilac





Meu Professor de Análise Sintática

Paulo Leminski

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
Regular como um paradigma da 1. Conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
Ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia matei-o com um objeto direto na cabeça.

Língua Portuguesa

Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!